quinta-feira, abril 08, 2010

Ágora


Eu não costumo discorrer aqui no blogue sobre os filmes que vejo, pois tenho algum receio de “escrever demais” e tirar a curiosidade, a quem me lê, de ver o filme do qual falo. No entanto, para este abro uma pequena excepção.

Ontem vi este filme e, devo dizer, que estamos perante um filme visualmente deslumbrante, uma obra que não olhou a despesas para recriar a antiga cidade egípcia de Alexandria, o que lhe confere uma autenticidade louvável e o carimbo de um dos melhores épicos que vi nos últimos tempos (na minha modesta opinião). Mas mais do que visualmente fantástico, “Ágora” afirma-se como uma película de extrema coragem. Ou não se reflectisse o filme sobre o tema menos tolerante e mais nocivo de todos: a religião.

Esta história passa-se em Alexandria, ano 391 D.C. Hypatia (Rachel Weisz) é uma jovem e brilhante filósofa. Determinada, sincera, pura de espírito, de coração e de corpo, Hypatia passa os dias na monumental Biblioteca da cidade, a conhecida Biblioteca de Alexandria. É lá que ela ensina os seus alunos, tentando incumbir-lhes um espírito crítico e reflexivo que apela à lógica. No entanto, estes são tempos difíceis. Tempos em que o Império Romano se encontra em pleno declínio e os outrora proscritos e amaldiçoados Cristãos espalham a sua fé livremente nas ruas, desrespeitando e cuspindo sobre os Deuses “pagãos” egípcios. Assim se vive em Alexandria. Assim vive um povo, religiosamente misturado, que lança, permanentemente, no ar um sentimento de confronto iminente. De crenças e religiões diferentes, que não sabem viver em conjunto, o que depressa resultará no derramamento de sangue inocente. Hypatia, mulher genial e que defende o livre pensamento, vê-se envolvida nesta luta de religiões entre homens imbecis que se julgam “santos” e detentores da palavra de Deus.

Atenção que este filme não é um filme de propaganda anti-cristã, como já vi descrito em alguns blogues ou em comentários. É antes uma crítica à intolerância religiosa e ao fanatismo que se sobrepõe à inteligência, ao bom senso, à evolução do pensamento e, em última análise, à paz entre todos os homens.

Ao ver este filme, lembrei-me logo da polémica causada por uma frase de Saramago: “a Bíblia é um manual de maus costumes”. “Ágora” vem, pura e simplesmente, reforçar esta afirmação. Sei, perfeitamente, que há pessoas que dirão que a religião é intocável e o supremo altar da paz, da moral e dos valores. Outros dirão que é apenas uma razão para fomentar o ódio e guerra. Eu acho que é ambas as coisas, dependendo da pessoa que a apregoa. Eu acredito em Deus, algo superior a nós. Acredito que Deus está em todas as coisas. Está em mim, está em vocês, está no ar, no céu, nas estrelas, no sol, na lua, nas flores, nos animais, etc. Acredito em Jesus Cristo. Admiro o sacrifício que fez, embora, por vezes, me pareça que foi em vão.

No entanto, não deixo a minha fé cegar os meus olhos, nem o meu pensamento. Não sou crente ao ponto de acreditar em tudo o que a Bíblia me diz, nem muito menos levo as Escrituras ao pé da letra. A Bíblia não é, nem nunca foi, a Palavra de Deus. É antes, e isto é importante e faz toda a diferença, a Palavra dos homens sobre Deus. E os homens não são perfeitos. Têm defeitos, sempre tiveram, desde os primórdios da Humanidade. A Bíblia não caiu do céu aos trambolhões, nem foi envida por fax por Deus, o Todo-Poderoso. Foi escrita por pessoas como nós, que viviam numa época totalmente diferente. Hoje em dia escritores escrevem fábulas, onde animais falam. No entanto, todos sabemos que os animais não falam como nós. Então porquê acreditar que tudo o que está na Bíblia é verdadeiro? Porquê levar tudo aquilo ao pé da letra? Metáforas, sabem o que são?

Começo, portanto, a perceber-me que não sou uma Cristã normal. Que se guia cegamente pelas Escrituras. Sou uma Cristã á minha maneira. Como se tivesse uma religião única, pertencente só a mim. Vejo as coisas do meu modo, segundo a minha maneira de pensar e sentir. Não sou fundamentalista. Sei distinguir o bem do mal, a fé do fanatismo cego. Não julgo ninguém por ter uma crença diferente da minha, desde que essa crença não vise o sofrimento de outrem.

Em nome da religião já foram cometidas atrocidades inimagináveis. Isso é historicamente inegável. Inquisição, caça às bruxas, cruzadas são algumas das páginas negras do Cristianismo. Infelizmente, ainda hoje a religião é desculpa para apedrejamentos, genocídios, assassinatos, guerras e tudo o mais de ruim que há mundo. O fanatismo religioso nunca, jamais em tempo algum, poderá levar á paz. Violência só gera mais violência e destruição de tudo o que é puro e inocente.

Fantástico o filme e a forma como denuncia a intolerância e a opressão. Fantástica a Rachel Weisz que, no papel de Hypatia, tenta lutar contra o obscurantismo religioso, contra o fanatismo e a submissão inerente à condição feminina.

“Leitura da primeira carta de Paulo a Timóteo: Portanto desejo que em todas as partes os homens levantem as suas mãos em oração sem ira nem disputas. Igualmente, desejo que as mulheres, vistam com modéstia, decência e decoro, sem tranças no cabelo, nem ouro, nem pérolas, nem roupas caras, mas sim com actos benéficos. Que a mulher aprenda em silêncio e submissão plena. Não permito que uma mulher ensine ou tenha autoridade sobre um homem, apenas deve estar em silêncio.”

Decididamente, recomenda-se.

9 comentários:

Anne disse...

adorei a descrição e irei ver. :)

só uma coisa, para mim "jesus" não existiu e foi mais um homem comum usado para liderar a manipulação mental que é papel de qualquer religião. Por mais que digam que existiu o que é certo é que tirando a bíblia não há registo da sua vida em outras obras literárias da mesma época. ora, sendo tão importante e influente é um pouco estranho não é?
além do mais, cristo não é mais que o símbolo da vida em rituais pagãos, simboliza o ciclo da vida e da natureza. por isso para mim não passa de uma mera invenção. Já para não falar da bíblia, um verdadeiro manual de maus costumes.
e ao contrário da maioria dos cristãos que exige que os ateus se convertam, eu desde que não me chateiem a moleira com essas coisas cada um acredita naquilo que o fizer feliz. mas posso ter a minha opinião e é a de que a religião é motor de atraso evolutivo no homem, impedindo-o de viver racionalmente.

bjs

Aninhas disse...

Anne...

Tu sabes que eu acredito em Jesus. Mas não naquela imagem divinal. Acredito que foi um homem comum. Com as contradições, desejos, paixões e sentimentos de um homem comum e normal.

Quando acabei de ver o filme pensei: "a Anne é capaz de gostar disto" :). Tento em conta que temos ideias semelhantes :P

Bjx

Luz disse...

Parece interessante! Tenho o o ver!

bjinho

Anne disse...

sim, quando digo que não existiu digo a divindade, aquele ser sobre-humano que morreu e ressuscitou.
poderá ter existido um homem que foi utilizado nos propósitos que o imperador Constantino pretendia aplicar. isso acredito. há smp pessoas que são meros bonecos nas mãos de interesses reais. interesses que não passavam de desejos de posse, controlo e domínio nos reinos da época. sendo a religião uma ordem normativa social vem definir costumes, regras e leis e nada mais que isso. aproveita-se das mentes e espíritos mais frágeis e obscuros que no desespero se deixam enganar voluntariamente por charlatães e promessas vagas de felicidade eterna.
parafraseando uma grande blogger que conheço:

"quando uma seita deixa de ser seita e passa a ser religião? Ou será quando uma religião passa a ser seita? Vou dar-te uma opinião pessoal que transmite a minha opinião de religião e seita. Religião baseia-se na fé, na busca de uma força que resolva todos os problemas, que ajude a encarar o futuro com optimismo e passa a ser seita sempre que alguém se aproveite dessa fé, em proveito próprio, para fazer dinheiro e subordinar alguém, adquirindo, assim, poder. O homem procurou sempre encontrar apoios, seres superiores, que o ajudassem a vencer os problemas do dia a dia. Ele é um ser frágil por natureza. Errado está quando há um aproveitamento dessa fragilidade humana e, aí, surge a seita. O problema não está na formação de grupos, de núcleos, está no aproveitamento, na utilização que é feita dos mesmos. Existiriam religiões se tivessem, apenas, como objectivo o bem-estar dos seus seguidores. Concluindo: não existem religiões mas sim seitas que são mais ou menos aceites, mais ou menos perigosas."

http://thelookbrown.blogspot.com/

Aninhas disse...

Luz...

Eu gostei bastante :)

Bjx

Aninhas disse...

Anne...

Não diria melhor que essa blogger... :) Gosto de ver que não sou a única a pensar dessa maneira.

Parece-me que vais adorar o filme, tal como eu :) Depois não te esqueças de dizer qualquer coisas :P

Bjx

Olhos Dourados disse...

Eu vi o filme e adorei também.
Também sou católica, vou à missa, acredito em Deus, acredito em Jesus que fez coisas boas pela humanidade, mas não sou fanática. Tudo o que é fanatismo é mau.

Nês disse...

Selinho no meu blog :)

Aninhas disse...

Olhos Dourados...

Nem mais...

Bjx

****

Nês...

Já vou ver :)

Bjx